Seria pobre
e esdrúxulo comparar Meia-Noite em Paris com A Origem. Seria mais esdrúxulo e
mais pobre ainda dizer que Meia-Noite em Paris é quase um A Origem Artística. Mas o que seria de mim, senão um ser
pobre e esdrúxulo e completamente invejoso de Woody Allen a esse ponto.
Eu digo que
a “Golden Age” foram os 50’s e
60’s. Eu sempre digo que nasci na
era errada. Que faço parte de uma sociedade de valores distorcidos e que não me
encaixo no quadro geral. Mas será? Allen me fez perceber que talvez eu seja nostalgicamente
chata e previsível. E que apreciar meus tempos em que posso desfrutar de “
informação a rodo” e facilidades
aos milhares também pode ser agradável e, digamos, mais saudável.
Saudar e
apreciar os feitos do passado, são parte da trajetória. Afinal, tudo o que
temos e somos é uma soma de “eu deveria ter nascido 40 anos atrás e por isso
vou atrás de algo novo tentando reviver o velho”. Por isso digo que Meia-Noite
em Paris é um A Origem artística. Porque o personagem se embrenha dentro dos próprios
sonhos e desejos e depois dentro dos sonhos e desejos de quem ele deseja. É
quando a epifânia vem, é quando ele percebe que não há fim e que todos, em
qualquer momento estão presos ao passado de certa forma. Seja um passado
recente, de não ter ficado em Paris da primeira vez em que ali esteve ou de um
passado que ele não tinha vivido até então, do qual desconhecia a verdade.
Já disse
que invejo Woody Allen profundamente? Ele faz uma autocrítica e se realiza ao
mesmo tempo. Ele também é saudosista e isso transborda em cada cena que
presenciamos durante o filme. Ali, na pele de Owen Wilson, de Gil Pender, está
Woody. O mesmo andar, a mesma acidez, as mesmas pausas dramáticas entre as
falas, os mesmos medos e os mesmos anseios.
BAM! De
repente são 20. De repente Dali está entusiasmado com rinocerontes e Picasso
preocupado com sua amante que partiu. E Hemingway? Quando abre a boca, é como
se estivéssemos lendo seus livros! Mergulhamos em livros que são reescritos
conforme Gil se “intromete” na vida dos boêmios. Mergulhamos em pura e simples
história, mas que, diferente de assistir a uma biografia de Gertrudes Stein,
nem ela, nem nenhum dos grandes artistas são os protagonistas. São só parte da
paisagem que se molda para receber o homem vindo do futuro, que por sua vez é
tão nostálgico que se adapta instantaneamente ao cenário.
Gil entrega
um Valium para Zelda Fitzgerald e ela se questiona: “o que é isso? Eu nunca ouvi falar em Valium!” e ele rebate: “é a pílula do futuro.”. Porque nos anos
20, a melancolia se resolvia com álcool ou suicídio. No futuro, demos solução
aos angustiados. Um choque cultural e de épocas, mas que, ao mesmo tempo, se
encaixam perfeitamente.
Toda a
história presente do protagonista não passa de plano de fundo, de passado para
o que está acontecendo com ele. A concepção de voltar ao passado é absurda, mas
nos entretemos junto ao Gil na esperança de entender um pouco mais. Chego a
torcer veementemente para que ele fique com Adriana que se perde na Belle Époque e, ao contrario de Pender, não
resiste ao charme que o passado pode trazer. É absurda e majestosa essa
discreta máquina do tempo representada por um antigo táxi. E há veracidade
mostrada quando o detetive contratado para seguir Gil também fica preso no
passado.
Desculpem-me
os realistas, mas nostalgia é essencial. O romance e magia de Paris nos deixa a
ver navios quando estamos oceanos de distancia. Culturas de distancia da Terra
Prometida pela legião artística que habita as ruas e cafés da Cidade Luz.
E aos
imediatistas, seguidores de Steve Jobs da Geração Y, eu diria: Cuidado, Nata
Intelectualóide Geek Fashionista de Seriados Americanos e Quadrinhos da Melhor
Banda da Última Semana, como já diria o grande compositor Criolo, em seu
perfeito Criolês: “e quem se julga nata, cuidado pá num quaiá”. Que foi? Não
entendeu? Pergunte a voz da experiência. Novo, velho, bom, ruim, vanguardista,
copista, Flintstones ou Jetsons, por que não? Afinal somos novos, inéditos, mas
até quando? Somos o agora, mas só há o agora porque já houve o antes, que só
agora é antes porque antes era agora.
Eu adoro a
Apple e o Frank Sinatra, posso? Mas claro. O que seria da Apple se não fosse
Adão ou se a bendita fruta não caísse na cabeça de Newton? E o que seria de
Jamie Cullum sem Sinatra?
